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Design Universal na Prática

Muito provavelmente, você já usou o termo “público-alvo” em alguma reunião de planejamento, num trabalho de escola, ou até mesmo em casa.

De tão difundido, este pode parecer ser um conceito super bem resolvido na cabeça das pessoas, certo?

Mas, algum dia, você já parou para se perguntar quem é, de fato, esse tal de público-alvo? Onde vivem? Como se alimentam? Como se comportam enquanto usuários? Bom… isso aqui não é um programa de TV que passa sexta à noite e, por isso, você não verá nenhum vídeo de uma “manada” de públicos-alvo correndo em uma savana. Nosso objetivo é refletirmos sobre um outro conceito que pode levar o público-alvo à extinção: É o Design Universal.

Diversidade é a palavra de ordem dos dias atuais e, sendo assim, os produtos digitais não podem passar ao largo dessa tendência que veio pra ficar.

Não só as pessoas com deficiência, mas também os idosos, os estrangeiros (que ainda não dominam o idioma local) e até mesmo indivíduos com alguma deficiência temporária têm conquistado cada vez mais seu espaço, seja no mercado de trabalho ou na sociedade em geral. Já não é mais segredo que os espaços urbanos e seus equipamentos estão, ainda que timidamente, sendo adaptados para atender a esses públicos. Hoje em dia, a gente percebe que diferentes objetos como aparelhos eletrônicos, automóveis, ônibus, banheiros e até carteiras escolares possuem alguma “adaptação” para que as pessoas com deficiência consigam utilizá-los. Preste atenção na palavra “adaptação”.

Entretanto, existe uma corrente no campo do Design que prega uma premissa que, para nós, designers, desenvolvedores, publicitários e diretores de criação, pode parecer um pouco estranha:

Esqueça o público-alvo. Seu design é para todos… e para
qualquer um!”

Pois é… estamos falando do Design Universal

O Design Universal (D.U), também chamado de Design Total e Design Inclusivo, sustenta a ideia de projetar (ou no inglês, to design) produtos, serviços, ambientes e interfaces que possam ser usadas pelo maior número de pessoas possível, independentemente de suas capacidades físico-motoras, idade ou habilidades. Ou seja, seu design é para todos e para qualquer um!

Ronald Mace, cunhou o termo “Universal Design” para descrever o conceito de criação de produtos e ambientes cuja estética e usabilidade são oferecidas, a todos, independentemente da sua idade, habilidade ou status. Ele também foi um defensor ferrenho dos direitos das pessoas com deficiência, o que foi uma marca importante em seu trabalho.

A campo do Design Universal sugere que o designer /projetista /arquiteto se baseie em 7 princípios que norteiam a criação de um produto:

  1. Uso equitativo;
  2. Uso flexível;
  3. Uso simples e intuitivo;
  4. Informação perceptível;
  5. Tolerância ao erro;
  6. Baixo esforço físico;
  7. Tamanho e espaço para aproximação e uso.

Esses princípios são fruto de um estudo conduzido por um grupo multidisciplinar formado por arquitetos, engenheiros e designers, com o intuito de servir como guia a um vasto leque de outras disciplinas.

Mas isso não é o mesmo que acessibilidade?

Para algumas pessoas pode ser difícil enxergar as fronteiras entre Design Universal, Usabilidade e Acessibilidade. Uma dica é pensar assim:

  • Acessibilidade – se preocupa com a qualidade do acesso para qualquer pessoa (premissa básica para o próximo item);
  • Usabilidade – uma vez garantido o acesso, estuda-se o perfil do usuário, a fim de propor a melhor qualidade de uso;
  • Design Universal – se preocupa em fazer com que o produto seja acessado e usado por qualquer um, qualquer um mesmo, respeitando os 7 princípios acima.

Dá pra perceber que um produto que possui um design universal não precisa de adaptações (aquela palavra que pedi para você lembrar), nem ajustes, para que uma pessoa deficiente possa utilizá-lo. Isso significa que o mesmo (mesmíssimo) produto pode ser usado por pessoas com ou sem deficiência física e dos mais variados biotipos.

Santa complicação, Batman! Vou ter que refazer tudo?
O cliente não vai querer pagar!

Calma lá! Antes que alguém quebre sua caneca na testa, é bom saber o seguinte: praticar Design Universal não quer dizer que qualquer produto ou ambiente possa sempre ser usado por todas as pessoas, em todas as condições. É por isso que é mais apropriado considerar o Design Universal não como uma meta a ser atingida, mas sim, como uma visão, um processo a ser adotado em todo o ciclo de vida do produto. Ou seja: É uma mudança de postura do mercado!

Ok, mas como o design universal funciona na prática?

A Universidade da Carolina do Norte, nos Estados Unidos, possui um centro de estudos chamado The Center for Universal Design (CUD), que tem como missão ser um centro de pesquisa, análise, desenvolvimento e promoção do Design Universal, tanto em produtos quanto em espaços públicos e domésticos.

Pois em 1997, o CUD lançou uma publicação na qual foram definidos os 7 famosos princípios do Design Universal que citamos anteriormente. Logo abaixo, vamos detalhá-los um por um, mas antes, é bom sabermos como o pessoal do CUD organizou cada princípio:

  • Nome e número do princípio. Isso serve pra ajudar na assimilação;
  • Definição do princípio. É uma breve descrição das diretivas básicas;
  • Recomendações. E uma lista de elementos-chave que devem estar presentes no design de um produto ou serviço.

É bom lembrar que nem todas as recomendações podem ser relevantes a todos os tipos de projeto. Agora, vamos aos princípios:

Princípio 1: Uso equitativo

Portas automáticas são convenientes para todos os clientes, especialmente, aqueles com as mãos ocupadas.

Definição: O design deve ser útil e comercializável às pessoas com habilidades diversas.

Recomendações:

  1. Fornecer os mesmos meios de utilização para todos os usuários: idêntico sempre que possível ou equivalente quando não.
  2. Evitar segregar ou estigmatizar quaisquer usuários.
  3. Promover igualmente a todos os usuários privacidade, segurança e proteção.
  4. Oferecer um design atraente para todos os usuários.

Princípio 2: Uso flexível

Tesouras com encaixes maiores proporcionam o uso com as duas mãos, permitindo que possamos alterná-las durante as tarefas muito repetitivas.

Definição: O design deve acomodar uma ampla gama de habilidades e preferências individuais.

Recomendações:

  1. Oferecer a possibilidade de escolha de métodos de utilização.
  2. Oferecer a possibilidade do uso por pessoas destras ou canhotas.
  3. Possibilitar a precisão e acurácia do usuário.
  4. Oferecer a capacidade de adaptação ao ritmo do usuário.

Princípio 3: Uso simples e intuitivo

Em estações de emergência, o uso de cores e símbolos altamente conhecidos permite aos transeuntes facilmente reconhecer os controles disponíveis.

Definição: O uso do produto deve ser fácil de entender, independentemente da experiência, conhecimento, competências linguísticas ou nível de concentração atual do usuário.

Recomendações:

  1. Eliminar a complexidade desnecessária.
  2. Oferecer consistência com a intuição e as expectativas dos usuários.
  3. Acomodar uma ampla gama de competências linguísticas e alfabetização.
  4. Organizar as informações em consistência com a sua importância.
  5. Fornecer mensagens eficazes de aviso e de informação, durante e após a conclusão da tarefa.

Princípio 4: Informação perceptível

Pequenas ranhuras no teclado do celular revelam onde estão as funções mais importantes, sem que o usuário tenha que olhar para as teclas.

Definição: O produto deve comunicar ao usuário todas as informações necessárias de forma efetiva, independentemente das suas condições ambientais ou habilidades sensoriais.

Recomendações:

  1. Usar diferentes modos (pictórica, verbal, tátil) para apresentação redundante de informações essenciais.
  2. Fornecer uma diferenciação adequada entre informações essenciais e acessórias.
  3. Maximizar a legibilidade de informações essenciais.
  4. Diferenciar elementos de maneira que possam ser facilmente assimilados.
  5. Fornecer compatibilidade com uma variedade de técnicas ou dispositivos utilizados por pessoas com limitações sensoriais.

Princípio 5: Tolerância a erros

Em uma pistola de pregos, uma sequência de segurança requer que o usuário a) pressione a trava de segurança para só então b) puxar o gatilho. Isso minimiza a chance do usuário atirar em alguém ou em algum objeto por acidente.

Definição: O design deve minimizar os riscos e as consequências adversas de ações acidentais ou não intencionais.

Recomendações:

  1. Organizar elementos para minimizar erros e riscos: os elementos mais usados, mais acessíveis; elementos perigosos eliminados, isolados ou blindados.
  2. Fornecer avisos quanto aos erros e aos riscos.
  3. Fornecer recursos à prova de erros.
  4. Evitar ações inconscientes em tarefas que exigem maior atenção e vigilância.

Princípio 6: Baixo esforço físico

A maçaneta não requer um que o usuário segure-a totalmente para ser aberta. Neste exemplo, ela ainda pode ser usada com a mão fechada ou mesmo com o cotovelo.

Definição: O produto pode ser usado eficiente e confortavelmente, com um mínimo de fadiga.

Recomendações:

  1. Permitir que o usuário mantenha uma posição corporal neutra.
  2. Racionalizar a força necessária para sua operação.
  3. Minimizar ações repetitivas.
  4. Minimizar o esforço físico permanente.

Princípio 7: Tamanho e espaço para aproximação e uso

Portas largas nas estações de metrô podem acomodar cadeirantes, bem como trabalhadores com pacotes ou bagagem.

Definição: Oferecer espaço e tamanho apropriados para aproximação, alcance, manipulação e uso independentemente do tamanho do corpo, postura ou mobilidade do usuário.

Recomendações:

  1. Oferecer uma linha clara de visão dos elementos mais importantes para qualquer usuário, esteja ele sentado ou de pé.
  2. Oferecer o alcance a todos os elementos de maneira confortável para qualquer usuário, esteja ele sentado ou em pé.
  3. Acomodar variações de mão e punho.
  4. Fornecer espaço adequado para o uso de dispositivos de auxílio ou assistência pessoal.

Os princípios acima são uma tradução livre da cartilha divulgada pelo C.U.D. Para baixar a cartilha original, em inglês, clique aqui.

Bom, um dos objetivos deste post é que ele sirva para que a gente repense nossa postura como desenvolvedor, designer e cidadão, ou, pelo menos, tenham plantado uma semente para um novo pensamento.

Professor autor: Alan Vasconcelos

Imagens:
The Center for Universal Design (1997). The Principles of Universal Design, Version 2.0. Raleigh, NC: North Carolina State University.