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desenvolvimento ágil de software

Os tipos de conhecimento e as dinâmicas criativas com post-its

Uma importante razão para os ambientes criativos estarem tão cheios de notas adesivas na parede.

Se você trabalha com desenvolvimento ágil de software, provavelmente já participou de alguma oficina com uso intensivo de post-its. Se essa oficina foi bem preparada e conduzida, provavelmente teve muita discussão e participação de pessoas com diferentes pontos de vista. Mas por que esse tipo de dinâmica e oficina são tão populares?

Temos visto nos últimos anos a popularização de dinâmicas de criatividade e inovação que envolvem princípios de design thinking, com uso de post-its, muitas discussões etc. Principalmente em cenários em que há desenvolvimento ágil de software, pois são ambientes em que a comunicação cara-a-cara e a cooperação são fundamentais para o sucesso do projeto. E esse tipo de dinâmica favorece a comunicação e a cooperação.

Há várias razões pelas quais a comunicação constante e a cooperação são essenciais. O que vamos ver neste artigo é um dos fundamentos teóricos que demonstram as vantagens da cooperação e de múltiplos pontos de vista para se pensar uma determinada solução. A base disso são os tipos de conhecimento que temos, alguns mais facilmente acessíveis e outros de difícil acesso. E todos eles são importantes para podermos entender os problemas corretos e pensar as melhores soluções.

Os tipos de conhecimento

Podemos categorizar os tipos de conhecimento de acordo com dois atributos.

  1. O primeiro deles é se nós temos ou não o conhecimento. Se temos, é algo que sabemos. Se não temos, é algo que não sabemos. Simples assim.
  2. O segundo se refere à consciência com relação ao atributo anterior: temos ou não consciência de que sabemos algo (ou de que não sabemos). Parece confuso, mas é simples.

Vamos colocar os dois atributos em uma matriz e traçar quatro quadrantes para mostrar os tipos de conhecimento.

desenvolvimento ágil de software

Vamos primeiro analisar os conhecimentos de que temos consciência, que são mais simples de se entender.

Sabe que sabe

Nós podemos saber como fazer um bolo de cenoura e certamente teríamos consciência desse conhecimento. Alguém te perguntaria: “Você sabe fazer um bolo de cenoura?”. Você diria “Sei”. Simples assim.

Sabe que não sabe

Talvez você não saiba como pintar um quadro usando aquarela. E tem consciência de que não sabe disso. Aí alguém te perguntaria “Você sabe pintar usando aquarela?”. Você diria “Não sei”.

Não sabe que sabe

Aí entramos na área da não-consciência sobre o conhecimento. Há algumas coisas que sabemos fazer, mas não temos consciência disso: chamamos de Conhecimento Tácito. Isso envolve algumas coisas que não sabemos explicar direito como fazemos, como andar de bicicleta. Podemos saber como nos equilibrarmos, mas dificilmente saberíamos explicar como fazemos para manter o equilíbrio. Ou pessoas com muita habilidade para fazer bolos, que sabem exatamente o momento de tirar o bolo do forno, mas não são capazes de explicar como sabem disso. Esse é o tipo de conhecimento chamado de Tácito.

Não sabe que não sabe

E por último temos o tipo de conhecimento mais difícil de se acessar, que é aquele que não sabemos e não temos consciência disso. São situações inesperadas e imprevisíveis que podem acontecer, mas sobre as quais pouco ou nada se pode fazer.

Dinâmicas criativas

Então, quando realizamos esse tipo de dinâmica criativa, é com objetivo de acessar não somente os conhecimentos “triviais”, mas também os conhecimentos difíceis de se alcançar. Durante as dinâmicas várias discussões realizadas, em um clima agradável e lúdico, com pessoas com diferentes pontos de vista (comercial, desenvolvimento, produto, marketing etc.), durante bastante tempo para conseguir discutir em amplitude e em profundidade os vários atributos de um problema.

É só a gente analisar alguns dos principais processos criativos que temos por aí: o mais famoso deles é o design thinking, que passa por alguns ciclos de divergência e convergência de ideias para conseguirmos definir o problema que estamos resolvendo, e a solução que queremos propor. Também temos o design sprint, que já tem um foco em soluções de interface de software, que passam pelo mesmo processo de divergência e convergência de ideias, para definir o problema, criar protótipos e validar os protótipos ao final de uma intensa semana de oficinas. Alguns já devem ter ouvido falar também do Lean Inception, uma oficina geralmente utilizada no início de projetos de desenvolvimento de software para entender o problema, alinhar ideias e expectativas e sair no final com um roadmap, contendo o planejamento de funcionalidades para um produto atingir o seu objetivo.

São várias abordagens e processos, mas com fundo bastante similar. Estimular a criatividade, promover o alinhamento, definir bem um problema, chegar em soluções. E como ingredientes das suas oficinas, também temos coisas bem similares: muita discussão, ideias à vista (usando post-its, por exemplo), múltiplos pontos de vista para acrescentar.

E tudo isso para tentar acessar a parte relevante do conhecimento de cada um, e conseguir procurar as melhores ideias. A criatividade não está em ter uma ideia genial, mas identificar as ideias mais relevantes dentro de uma coletividade e considerar as melhores partes de cada uma, para criar uma solução melhor.

Mas lembre-se: usar post-its não significa usar a criatividade. Essas notas adesivas são apenas uma ferramenta para ajudar a materializar as ideias e colocá-las de forma visível.

Professor autor: Augusto Campos Farnese